O único livro

Eu acho que eu leio muitos livros, mas não leio tanto quanto gostaria, porque eu oscilo muito com leituras. Ou talvez humores, não sei. Se estou com a cabeça leve, eu leio. Já com a cabeça pesada é difícil - mas não raro - até mesmo para abrir um livro tamanha a preocupação, o desânimo, o cansaço ou mesmo a preguiça. Ou tudo junto. Então, muitas vezes eu passo muito tempo sem ler. Aliás, lembrei agora que se eu sentir alguma angústia, acabo recorrendo às leituras para, simplesmente, me sentir bem, espairecer, fugir da realidade. Às vezes, isso até me ajuda a desatar alguns nós da minha cabeça. E também há vezes que eu entro naquela fase de somente devorar livros por um certo período. Enfim, eu oscilo muito, além de procrastinar muito minha lista de livros que pretendo ler, mas não tem problema, não tenho pressa.

Pois bem, ao longo da minha vida, muitos livros me marcaram: oriente médio, eu sei porque o pássaro canta na gaiola, cidadã de segunda classe, viagem vertical, a amiga genial, enfim, esses são apenas alguns que me marcaram e fico "toda saudade", como diz o meu esposo, porque, segundo ele, tenho saudades de tudo. Quando esses livros me encantam tanto assim, eu os guardo com carinho, às vezes só ao tocar em um deles já me deixa bem nostálgica, me lembrando das histórias, me lembrando dos meus sentimentos, de tudo. E, dentre esses livros que me marcaram, há um, talvez o único, que não me faz ter esses sentimentos de nostalgia, de querer reler como da primeira vez, mas ressalto: não odiei o livro. Bem pelo contrário. Não verás país nenhum, é exatamente esse título, de um escritor brasileiro, Ignácio de Loyola Brandão. Nunca um livro me deixou tão chocada, e acho que devo dizer que eu já li muitos livros chocantes, mas esse é chocante de uma forma diferente que eu não sei explicar. Só sei que eu não consigo parar de pensar nele. Até hoje, depois de mais ou menos 7 anos. Não tiro da cabeça, mas gosto que seja parte de mim.

O livro é um romance, distópico e profético, mas não sei se por essas características, o livro é considerado como ficção científica. Ficam a dúvida e a dica, porque é um livro impressionante. É tão real, tão atual que me deixa sempre temerosa. Eu acho que por isso que o livro não sai da minha cabeça desde que eu comecei a ler. Só para ter noção do que se trata, eu peguei uma parte de uma resenha do <a href="https://homoliteratus.com/nao-veras-pais-nenhum/">Homo Literatus</a> que resume bem a história:

<i>"Em Não verás país nenhum, Souza, narrador-personagem, conta aquilo que poderá vir a ser o nosso país em pleno caos que o próprio ser humano criou com o passar do tempo: escassez de alimentos e água; proibição de livre circulação da população; opressão; autoritarismo; falsificação da história; o desastre ecológico ameaçando a sobrevivência; a violência direta e indiretamente exercida."</i>

Ao terminar esse livro, me senti apunhalada, desesperançosa, bem para baixo por um bom tempo. E agora que estamos em uma pandemia sem precedentes, eu comecei a ter vontade de reler esse livro, mas não espere minha explicação, porque realmente não sei porque justo agora. Talvez essa vontade passe. E assim, permanecerá como o único livro que eu amei, apesar de não querer relê-lo de forma alguma.

Caso tenha vontade de ler esse livro, eu sugiro que leia algo relacionado ao bem viver em seguida. Para reacender a esperança. Para nos inspirar. Para lutar por um futuro melhor para a nossa e futuras gerações. Organizemos para esse caminho ou essas palavras serão inúteis.

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